Esse dia, todos os dias
Nesse vagão delimitado pela cor rosa estamos nós protegidas do assédio violento dos homens.
Nesse vagão rosa a mulher pinta seu rosto neste ato rotineiro. Um espelho a sua frente reflete o quão correto seus traços estão. Dedos com unhas muito bem decoradas se movem em direções treinadas. Um ritual!
Depois de ter seu rosto também decorado chega o momento de trocar o chinelo libertário por uma sandália cerceadora que faz um belo conjunto com sua calça, sua blusa, sua bolsa. Todos incômodos e justos de tal modo que vejo claramente a marca de sua roupa íntima. Um belo conjunto que limita seus movimentos e a coloca no seu devido lugar, parada, paralisada, cerceada, subserviente.
Está, pois, pronta para o seu dia, todos os dias.
Nesta manhã todas as manhãs

Na Central do Brasil todos os trabalhadores esperam, 
trabalhador-voz informa que trens com destino Belford Roxo partem com atraso.
trabalhadores-camelôs fogem dos trabalhadores-guardas municipais.
trabalhador-motorista não para ao sinal de trabalhador-passageiro.
trabalhador-fiscal fiscaliza trabalhador-motorista.trabalhadores continuam esperando o trem.

Trabalhadores de todo mundo.....

Chão Preto

É o mesmo centro, mas é outro.
Dona Ninguém me diz:
- Só entende quem pisa.
- Eu pisei....
- Não é isso. - ela responde.
E se foi embora conversando com alguém que só quem pisa entende. Minhas sandálias me isolam. Só quem tem nos pés esse chão preto, na pele, um chão preto pode entender.
Um chão preto desembarque negreiro:
Negros pretos, brancos pretos, travestis pretos, pobres pretos; trabalho para os senhores e senhoras que não sabem.
É preto o chão, os senhores e senhoras não entendem.






Pressa

Há tanto tempo com pressa
Fui ver um filme sem pressa
Tinha um cisco no olho
O cisco da pressa de andar contra o vento
De andar contra